As atividades em comemoração aos 69 anos da ESP-MG contaram também com relatos emocionantes e sensibilizadores sobre experiências com a saúde pública, educação permanente e saberes populares.

Rossana destacou ainda a Escola, além de um espaço de aprendizagem é um espaço onde esses atores se encontram e alinham ideias. Créditos: Sofia Coeli

A professora da Universidade Estadual de Londrina, Rossana Staevi Baduy, falou sobre “Educação Permanente no SUS: avanços e apostas”, focando na importância de ouvir o outro para aprimoramento dos serviços de saúde. “No SUS temos que criar espaços para que as pessoas se coloquem como partes do processo de construção. Quem aprimora o sistema são os trabalhadores, os usuários e todos os atores envolvidos e cada um tem seu saber, sua experiência. É nesse espaço de ouvir que a educação permanente acontece”, disse.

Rossana destacou ainda a Escola, além de um espaço de aprendizagem é um espaço onde esses atores se encontram e alinham ideias. “Afinal, educação permanente é uma política de reconhecimento da aprendizagem no cotidiano de trabalho”, concluiu.

Francisco de Assis Machado relatou sua vasta experiência na saúde pública em Minas Gerais e emocionou a todos.

O SUS que vivi

O médico sanitarista e participante ativo do movimento de Reforma Sanitária no Brasil, Francisco de Assis Machado, o Chicão, foi convidado para falar um pouco sobre sua autobiografia lançada em 2013, “O SUS que eu vivi”, em que ele relata sua vasta experiência na saúde pública em Minas Gerais.

Com fala pausada e muito emocionado, ele contou que durante sua prática profissional ele aprendeu que perguntar, ser ousado e conversar com as pessoas é essencial e a maneira mais efetiva de cuidar das pessoas. “Todos tem um saber, o povo tem saber e os profissionais acham que sabem tudo. Temos que reconhecer a experiência do outro e suas opiniões e mesmo diante das impossibilidades persistir em nossos ideais”, falou.

Chicão presenteou a Diretora com um exemplar do livro "O SUS que eu vivi"

Ainda sobre os relatos de sua “vida iluminada", Chicão disse que o SUS é o resultado de uma sucessão de experiências, mas ainda hoje persiste o desafio de formar médicos para atuarem em áreas rurais. Ele salientou que para manter o sistema é necessário que haja reformulações na forma de financiamento e na reforma tributária no Brasil. “O SUS é uma política regressiva, quem ganha menos paga mais. Estamos socializando o SUS. Temos que debater diariamente as questões políticas-ideológicas sobre o SUS que temos e o SUS que queremos”, cobrou.

Acesse aqui o livro “O SUS que Vivi”: http://migre.me/q88Xd

Saber popular

Outra experiência que trouxe reflexão a todos os participantes foi a da educadora popular e integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Lúcia Martins Pereira, com relatos emocionantes sobre o trabalho dentro da Escola que culminou no livro Cuidados em Saúde Mental: Diálogos entre o MST e o SUS.

“Foi uma experiência muito valiosa, onde aprendemos a lidar e ter sensibilidade com as questões que atingem nosso assentamento como alcoolismo e depressão, mas também ensinamos com toda nossa simplicidade que também sabemos das coisas. Fazemos teatro, medicamos a alma com música, dança, contamos histórias, temos gritos de ordem e sorrimos, apesar de toda nossa dificuldade”, relatou.

A educadora popular e integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Lúcia Martins Pereira provocou uma reflexão sobre saberes populares.

Lúcia faz parte do assentamento do MST no município de Jampruca, no Vale do Rio Doce e com toda sua vivência, apesar de sofrida, contou que as mulheres que estiveram na ESP-MG em 2013 para esse curso trocaram de pele. “Entramos aqui com nossa “casca grossa”, uma casca marcada por nossas lutas, pela desigualdade e pelo preconceito que enfrentamos diariamente, mas aprendemos tanto sobre a saúde mental que saímos com uma nova visão, uma visão da vida fora de nossas lonas. E tem mais. Como homens e mulheres do campo, desassistidos pelo Estado e marginalizados pela sociedade, nunca imaginamos que teríamos alguma coisa para ensinar, mas viemos aqui e ensinamos, a simbologia do homem do campo resiste e com a cabeça erguida”, declarou.

Lúcia agradeceu a todos da ESP-MG pelo acolhimento e fez votos de que outras mulheres do MST possam ser capacitadas como ela foi. “Falamos de saúde mental, mas acho que nós nos assentamentos somos loucos também. Quem marcha de Jampruca a Brasília a pé para lutar por um ideal só pode estar louca”, brinca.

No final, com toda sua simplicidade e emanando boas energias ela recitou para os presentes um poema da poetisa Cora Coralina.

Acesse aqui a publicação: http://migre.me/q891m

Servidores no momento tradicional dos parabéns e do bolo.

Tradição

A celebração dos 69 anos da Escola foi encerrada com a confraternização dos servidores e com o tradicional bolo de aniversário feito há mais de 10 anos pela servidora Fátima Camarinho, da Secretaria de Ensino e logo após, os funcionários foram presenteados com a performance do grupo musical Mutável Saralho Band, com uma deliciosa mistura de sarau, literatura brasileira e blues.

>> ESP-MG 69 anos: Memória, Desafios Futuros, Compromissos e Parcerias 

Por Ricarda Caiafa e Silvia Amâncio