Na última quinta-feira (11), a Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG), recebeu a ilustre presença do professor Antônio Nery Filho*, fundador e ex-coordenador geral do Centro de Estudos e Terapia de Abuso de Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (CETAD/UFBA), que com seus 35 anos de docência, inspira o campo da saúde mental nacional devido às práticas realizadas no cuidado aos usuários de drogas no estado da Bahia, com os projetos “Consultório de rua” e “Ponto de Cidadania”.

Na ESP-MG, ele ministrou a aula final da especialização em Atenção a Usuários de Drogas no SUS, com a temática “O que temos feito e o que podemos fazer à luz dos direitos humanos e da ética junto às pessoas usuárias de substâncias psicoativas?”, em que dividiu e nomeou as últimas quatro décadas, de forma linear, sobre o enfrentamento às drogas.

Confira aqui a íntegra da aula. 

Década heroica

Segundo o professor, de 1985 a 1995, com o conceito de Toxicomania introduzido pelos estudiosos franceses, a ciência propõe-se a estudar o encontro do homem com a substância psicoativa e não apenas a demonizá-la. A clínica entende que o indivíduo faz a droga, de acordo com sua dimensão social, ou seja, onde ele se encontra na sociedade.

Década da prevenção

A partir de 1995, com a epidemia da HIV/AIDS, faz-se necessário pensar em uma nova estratégia, pelo aumento de óbitos em usuários de drogas injetáveis. Nesse período, os consultórios de rua e pontos móveis de acolhimento promoveram a troca de seringas pelas ruas e criou-se a redução de danos, que segundo Nery deveria ser chamada de “redução de riscos e danos“

Década perdida

Em 2005, com o surgimento e ascensão das nefastas comunidades terapêuticas, que colocaram o Sistema Único de Saúde (SUS) como porta de saída do tratamento, o professor explica que a situação se agravou com a formação de um parlamento extremamente reacionário, conservador e inimigo da redução de danos. “Além disso, deixamos de promover a formação continuada, deixamos de falar claramente sobre os efeito das drogas com nossos filhos e demonizamos o crack”, disse.

Década da ética

Nery explicou que atualmente estamos na “Década da ética”, em que devemos propor um tratamento dessas pessoas pela ótica dos Direitos Humanos e ter a bioética (ética da vida) como norte. “Historicamente os usuários de drogas são tratados apenas na dimensão medicada, saúde e doença, ou pela repressão policial. Temos que reconhecer que as pessoas usam drogas para suportar o inevitável, a finitude da vida e suas vicissitudes”, declarou.

Na prática

Para a formanda Valéria Costa Pacheco, psicóloga e técnica de referência do Centro de Referência em Saúde Mental - Álcool e Drogas (CERSAM-AD) da região da Pampulha, em Belo Horizonte, Antônio Nery traz colocações pertinentes na rotina de trabalho do profissional do SUS. “Estamos inseridos num contexto em que grande parte dos profissionais ainda atua de forma estigmatizante e preconceituosa com o usuário de droga. Replicando o lugar que a sociedade o coloca. Nosso curso, pela ESP-MG, traz para cena profissionais que já estão trabalhando por um SUS mais inclusivo”, comenta.

A terapeuta ocupacional Maíra Santos, também formanda da especialização destaca que “é preciso multiplicar o conhecimento que ela adquiriu no último ano na ESP-MG, de maneira a fortalecer as lutas em favor do SUS, e da atenção e assistência para os usuários de drogas, com uma assistência que, de fato, alcance as necessidades desse sujeito, independente se o uso dessas substâncias é abusivo ou não”, frisou.

A vinda do professor Antônio Nery Filho na ESP-MG, encerra as atividades da especialização, que de acordo com a coordenadora Ana Regina Machado, referência em saúde mental da Escola, recebeu cerca de 30 convidados para as atividades, aulas, palestras e rodas de conversas.

*Nascido em Vitória da Conquista/BA, possui graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (1970), mestrado em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (1975) e doutorado em Sociologie et Sciences Sociales - Universite Lumiere Lyon 2 (1993). Foi professor da Universidade Federal da Bahia, professor da Faculdade Ruy Barbosa e associado do Grupo Interdisciplinar de Estudos Sobre Substâncias Psicoativas.

Por Leíse Costa (Estagiária de Jornalismo (ASCOM/ESP-MG)