Há exatos 35 anos, o professor bahiano Antônio Nery Filho* era responsável por uma função que lhe causava extremo desconforto. Médico psiquiatra, Nery trabalhava em um hospital judiciário em Salvador (BA), realizando perícias em jovens usuários de maconha e categorizando-os como “doentes ou traficantes”.

Antônio Nery Filho ministra aula na ESP-MG

Alguns anos depois, em 1985, Nery fundaria o Centro de Estudos e Terapia de Abuso de Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (CETAD/UFBA). Em conversa com a Assessoria de Comunicação Social da Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ASCOM/ESP-MG), o professor relembrou o início do CETAD e o atual cenário de acolhimento ao usuário abusivo de álcool e outras drogas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Como começou seu trabalho com o usuário de droga?

Comecei trabalhando em um hospital judiciário com perícias para jovens usuários de maconha. Naquela época, a lei exigia dizer se era doente ou traficante. Foi a primeira vez que isso me chamou a atenção. Não era justo. Não era uma coisa que me parecia adequada. Colocar nossos filhos nesse lugar de doente mental ou de traficante pelo uso de um produto como a maconha.

O CETAD surge quando?

Fiz um trabalho em um bom hospital de Paris (França), que tratava de usuários de drogas. De volta ao Brasil, em 1985, inaugurei o CETAD/UFBA. Desenvolvemos essa atividade na universidade juntamente com colegas do Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e Recife e de lá para cá temos desenvolvido uma série de atividades, tecnologias e cuidado, sobretudo com os usuários de álcool e outras drogas e seus familiares.

Como é o trabalho desenvolvido pelo CETAD?

Durante esses 32 anos do CETAD, nós temos como serviço um ambulatório, portanto, atendemos a pessoas com dependência química ou de uso complicado de um produto psicoativo, pode ser álcool, medicamento, maconha, cocaína e também atendemos seus familiares. Diria que essa é a parte clínica. Mas também temos o outro lado que é de ensino, de formação de recursos humanos. E nós temos uma outra vertente, que é o trabalho social. De modo que sempre trabalhei nessas três vertentes: clínica, ensino e social. Na Bahia damos o nome de “Educação para saúde” ou “Educação para a vida”. Isto é, trabalhamos com tudo que diz respeito ao social, as circunstâncias de exclusão, de vulnerabilidade.

Como funciona esse trabalho social?

Trabalhamos com pessoas em situação de rua, com meninos e meninas usuários de droga. Um exemplo, é o “Consultório de Rua”, que nós inventamos em Salvador para atender as pessoas em situação de rua que usam drogas e não conseguem ir até um serviço de saúde. Recentemente criamos o dispositivo “Ponto de Cidadania”, que são dois containers com chuveiros e vasos sanitários, com uma pequena sala de entrevistas para uma conversa com essas pessoas.

É possível falar de um perfil do usuário de droga?

Depende, não é possível falar disso de uma perspectiva só. Você tem o uso de drogas de pessoas que trabalham, que vivem suas vidas, que estão plenamente integradas. Essas pessoas podem correr algum risco, porque o uso de produto psicoativo implica sempre um risco, o álcool é o mais grave de todos. Existe a categoria que chamaria de usuários adaptados ou usuários sem problemas. Temos também uma categoria que chamo de usuários circunstanciais, pessoas que uma vez ou outra na vida usam o produto psicoativo.

E os mais graves?

Os doentes, no sentido de que essas pessoas encontram na droga uma alternativa para sua vida. E pode fazer desse uso uma doença. Essas pessoas precisam de uma assistência especializada, portanto, não posso falar no singular, nem da droga, nem do usuário. Tenho que falar sempre no plural, há várias drogas e vários modos de uso. E para cada modo de uso, nós temos que ter uma aproximação específica. Para quem vive sem problemas, usando um pouco de bebida, por exemplo, no fim de semana não cabe tratamento. Cabe sim, sempre e para todos, o que chamo de educação para a vida. É preciso proteger a vida, não importa se com a droga ou com medicamento.

E o usuário que faz uso abusivo da droga e que depende das políticas públicas. Como o SUS atende atualmente esse usuário?

Para ser honesto com sua pergunta, eu diria que o SUS, hoje no Brasil, não está de modo algum preparado para atender o usuário de álcool, menos ainda o usuário de outras drogas. Mais recentemente, o Ministério da Saúde criou um programa chamado “Consultórios nas ruas” que consiste em profissionais da saúde (médico, assistentes sociais, psicólogos) trabalhando na rua com o usuário de álcool e outras drogas. Isso está inserido na Atenção Básica, mas com muita dificuldade. 

Nery durante aula na ESP-MG em maio deste ano

Com este cenário, qual o papel dos trabalhadores da saúde mental do SUS?

Creio que na medida que essas pessoas puderam fazer um longo curso com boa formação e boas discussões, esses profissionais estão certamente melhor qualificados para compreender o uso da droga, para compreender as razões porque cada pessoa usa este ou aquele produto.

E como as instituições formadoras em saúde podem atuar como agentes de mudança deste cenário?

Trabalho numa faculdade de medicina e que, lamentavelmente, não tem no seu curso médico quase nada no sentido de formar médicos para atender o usuário de álcool e outras drogas. Lamentavelmente, também não encontramos esse cuidado nos cursos de Psicologia, nem de Serviço Social. Tenho clamado muito um espaço nas universidades para formar profissionais, particularmente da área de saúde, no cuidado as pessoas usuárias de álcool e outras drogas. Eu diria que hoje, essa é uma carência muito séria de formação acadêmica.

*Nascido em Vitória da Conquista/BA, possui graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (1970), mestrado em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (1975) e doutorado em Sociologie et Sciences Sociales - Universite Lumiere Lyon 2 (1993). Foi professor da Universidade Federal da Bahia, professor da Faculdade Ruy Barbosa e associado do Grupo Interdisciplinar de Estudos Sobre Substâncias Psicoativas.

Por Leíse Costa (Estagiária de Jornalismo (ASCOM/ESP-MG)