Na última sexta-feira (01), a Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG), recebeu o lançamento do livro “Campo, Floresta e Águas: práticas e saberes em saúde”, durante atividade das “Oficinas de Vigilância e Promoção à Saúde em Áreas de Reforma Agrária”, promovida pela instituição.

Na oportunidade, a Assessoria de Comunicação Social da ESP-MG conversou com um dos organizadores da publicação, Fernando Ferreira Carneiro*, que é coordenador do Observatório da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (Obteia) sobre as experiências desse projeto realizado coletivamente por pesquisadores populares e acadêmicos, movimentos sociais e instituições de ensino de todo o país. Confira!

Fernando, na ESP-MG, na mesa redonda "Trabalho, Saúde e Ambiente: desafios e compromissos na formação e atuação no SUS"

Como surgiu a ideia do livro?

O livro é resultado de seis anos de pesquisas realizadas pelo Obteia. O projeto foi financiado pelo Ministério da Saúde e executado pelo Núcleo de Saúde Pública da Universidade de Brasíli (UnB)a, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz do Ceará. O objeto desse livro tem a ver com a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCF) e um dos eixos dessa política é a avaliação em monitoramento.

Como foi o processo de produção?

Realizamos avaliações e monitoramentos por meio de pesquisas com movimentos sociais, universidades de todo o país, em nove territórios, nas cinco grandes regiões do Brasil. Começamos na Ilha do Marajó/PA, onde temos o pior IDH do Brasil, chegando até o Rio Grande do Sul, em uma área de assentamento do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Quem foram os parceiros nessa pesquisa?

Cerca de dez movimentos sociais participaram, o MST, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, a Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar do Brasil, o Conselho Nacional de Entidades Quilombolas entre outros. Para cada território se estabeleceu uma parceria entre uma universidade e um movimento social, um pesquisador popular e um acadêmico, que por meio de métodos de pesquisa participativas e dialógicas, buscaram trabalhar como essa Política se realizava no território. O livro é um esforço de 69 autores, envolvendo acadêmicos, movimentos sociais e profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, 20 revisores acadêmicos e populares, buscando inovar não só na parceria na execução da pesquisa, mas na elaboração do livro.

Qual foi o grande desafio na produção da obra?

Primeiro foi realizar a pesquisa, pois não se tem uma cultura de avaliação de políticas no Brasil, principalmente a partir de pesquisas mais rigorosas e com o financiamento do próprio governo, tendo a gestão certo receio pela pesquisa poder mostrar muitos problemas. O segundo desafio é o campo científico, de como fazer uma pesquisa de referencial participativo e de ação, já que a maioria das pesquisas realizadas são extrativas, em que os pesquisadores vão no território recolhem a informação e não há uma devolução. A nossa proposta foi fazer uma pesquisa em que as pessoas fazem com, não para e não sobre as pessoas, e isso não é uma linha hegemônica da ciência moderna.

Esse protagonismo das pessoas na pesquisa foi um dificultador?

A verdade é que não somos formados nem preparados para fazer pesquisa participativa, e inclusive, na academia há um preconceito, como se fosse uma pesquisa de segunda categoria ou como se não fosse ciência. Muitas vezes nós temos um discurso muito revolucionário, mas na hora de colocarmos em prática é difícil. Envolver 69 autores, movimentos sociais, a publicação em uma editora de uma universidade foi difícil. Imagine uma pescadora na Ilha da Maré (Salvador/BA), um extrativista na Ilha do Marajó receber e conseguir imprimir um termo de referência, assinar e enviar pelos Correios... Só nesse processo precisamos de um ano.

O livro é dedicado a quem?

Esse livro se dedica a vários atores, aos trabalhadores do SUS, em que sua grande maioria desconhece a Política, desconhece que as populações precisam de um olhar diferenciado, específico, cuidadoso. Ele também é direcionado aos movimentos sociais para que saibam que eles têm direitos e que muitas vezes ficam só no papel e não viram realidade. E também para academia, porque o próprio conceito campo, florestas e águas não é um conceito acadêmico, na academia você tem população rural. Esse é um conceito que foi formulado pelos movimentos e está sendo permanentemente construído e é uma grande oportunidade de elaboração conjunta e um conhecimento potente capaz de realizar as mudanças que essas comunidades precisam que ocorram para que realmente tenham seu direito à saúde.

E quem são essas populações?

É uma face oculta de um grupo que parece ser apenas 20% da população brasileira, mas se começarmos a olhar por outro lado, temos 50% a 60% dos municípios do Brasil deporte pequeno, com características quase que rurais. O que usualmente é chamado de rural, nós chamamos de campo, floresta e águas e é muito maior do que se imagina e ele está invisibilizado, ausente em termos de prioridade das políticas públicas.

Qual a mensagem central do livro?

Esse livro é uma oportunidade para você navegar de Norte a Sul pelo Brasil, descobrir uma população que ainda é invisibilizada pelos sistemas nacionais de informação, pelas políticas públicas e é uma nova dimensão que pode se abrir, principalmente para quem está estudando e se formando no campo da saúde. Uma das grandes demandas que essas comunidades expressam e vocalizam é a visibilidade, a existência.

A Biblioteca da ESP-MG (Unidade Sede) conta com um exemplar do livro “Campo, Floresta e Águas: práticas e saberes em saúde”, para consulta e empréstimo.

*Graduado em Ciências Biológicas, mestre em Saúde Ambiental, doutor em Epidemiologia e pós-doutor em Sociologia (Universidade de Coimbra/Portugal). Docente do Núcleo de Estudos de Saúde Pública da UnB e membro do grupo de trabalho de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

Por Ayrá Sol Soares (Estagiária de Jornalismo - ASCOM/ESP-MG)