As aulas presenciais foram suspensas na Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG) em março de 2020, motivadas pela emergência em saúde pública provocada pela covid-19. Naquele mês, foi publicada portaria que interrompeu as ações educacionais presenciais e o objetivo da medida foi preservar a saúde de todo o público envolvido nas atividades acadêmicas. A Escola estava naquele mesmo momento, com três especializações em curso, sendo que uma delas estava na fase de defesas dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs). Assim, visando atender às expectativas dos alunos em relação à sua formação no período previsto, a direção da Escola buscou alternativas para garantir a conclusão e o andamento das atividades.

Tendo por base a Resolução CEE nº 474, de 08 de maio de 2020, que dispõe sobre a reorganização das atividades escolares do Sistema Estadual de Ensino de Minas Gerais, devido à pandemia da covid-19, a ESP fez uma consulta formal, por meio da Assessoria de Gestão Acadêmica, à Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE) sobre a possibilidade de execução de carga horária teórica dos cursos de Especialização lato sensu, por meio do ensino remoto e recebeu parecer positivo. Além disso, conforme orientações da Assessoria de Gestão Acadêmica (AGA) à Superintendência de Educação e Pesquisa em Saúde da ESP-MG, cada coordenação de curso elaborou um documento constando a proposta de mudanças e as adaptações requeridas para a finalização da carga horária, que foi apresentado ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPEX) e à AGA. Assim, foi possível finalizar a turma do curso de Especialização em Comunicação em Saúde e dar continuidade às aulas dos cursos de Especialização em Saúde Pública e de Especialização em Direito Sanitário

De acordo com o Superintendente de Educação e Pesquisa em Saúde da ESP-MG, Rodrigo Martins Machado, "considerando o contexto diferenciado de cada uma das turmas, as coordenações se esforçaram para construir processos que garantissem uma gestão acadêmica segura, bem como propiciassem um ensino de qualidade e ancorado com a realidade e com o cotidiano do trabalho". O Superintendente menciona a Especialização em Comunicação e Saúde, que já estava em fase final e transformou toda a etapa de apresentação de TCCs para o modelo remoto. Conforme ele explica, isso não significou apenas a apresentação dos trabalhos por meio de videoconferências, mas sim o desenvolvimento de processos de gestão acadêmica virtuais para formalização das atividades finais.

Já as Especializações em Saúde Pública e em Direito Sanitário precisaram promover adaptações para incorporação de estratégias de ensino remoto nos projetos pedagógicos e nos planos de disciplinas, inicialmente preparados para o ensino presencial, e todas elas foram feitas em conjunto com a Secretaria de Gestão Acadêmica e com os docentes das disciplinas. "Nossa preocupação foi garantir a legitimidade e a qualidade de nossos processos formativos. Além disso, buscamos fazer essa adaptação tentando evitar uma sobrecarga de trabalho para nossos alunos, que são em sua maioria profissionais de saúde", completou o Superintendente.

Especialização em Comunicação em Saúde

A especialização em Comunicação em Saúde, única no estado, começou a ser ofertada na ESP-MG, em 2014 e atualmente está fechando sua terceira turma. Em razão da pandemia, as bancas de Trabalho Final de Curso (TCC), ocorreram, pela primeira vez na Escola, de forma remota. Foram realizadas 23 bancas entre os dias 18 de maio a 26 de junho deste ano. Diversos assuntos que envolvem o campo da comunicação e saúde foram desenvolvidos nos trabalhos apresentados. Clique aqui e conheça as temáticas e os estudantes responsáveis pelos TCCs. Em breve esses trabalhos estarão disponíveis no repositório institucional da ESP-MG. Clique aqui para acessar.

Esse ineditismo, causado pela covid-19, trouxe também novos desafios para estudantes e professores, como foi o caso da Fernanda Corrêa, ex-aluna da Especialização em Comunicação em Saúde, que defendeu seu TCC, intitulado: "HPV NAS REDES: análise das postagens no Facebook da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais", em 29 de maio, de forma remota. De acordo com ela, quando soube que a defesa não seria presencial, teve um pouco de receio devido à novidade, mas foi positivamente surpreendida. "Eu tinha a expectativa de ser uma defesa presencial, como em outros cursos, então estava um pouco receosa com a novidade. Foi diferente, claro, mas tudo o que podia ser apresentado foi contemplado.

Além disso, as considerações da banca foram muito pertinentes e bem próximas ao que poderia acontecer se fosse presencial", relembra. Fernanda também acredita que este formato poderia ser avaliado para também ser incorporado em novas bancas, considerando a evolução das interações tecnológicas.

Print de uma das bancas de TCCs da Especialização em comunicação em saúde

 O coordenador do curso, Jean Alves, comenta que diante da situação de suspensão das atividades presenciais e precisando cumprir o cronograma, bem como outras questões de certificação do curso, a possibilidade das bancas remotas foi muito adequada. "Embora a escola ainda não tivesse realizado bancas remotas, elas ocorrem eventualmente em algumas situações, principalmente com convidados de outras localidades, em diversas instituições. Com base nessas experiências, entendemos que seria possível realizar as bancas remotas. Escolhemos uma ferramenta mais abrangente, e organizamos um fluxo que possibilitasse realizar as bancas no mesmo formato das presenciais: apresentação do aluno, na tela com slides, momentos de escuta, fala, deliberação entre os membros da banca e posterior retorno do estudante para receber os resultados", detalha o coordenador.

Ele também ressalta que para garantir o rito regimental da banca, além da parceria com a Gestão Acadêmica, criou formulários no Sei (Sistema Eletrônico de Informações), o que possibilitou que toda a documentação fosse providenciada de forma ágil e segura, com assinatura digital por todos os participantes. Por fim, Jean destaca que foram vários desafios para conseguir viabilizar as bancas remotas, mas que foi uma vivência muito positiva, com a qualidade da produção científica da ESP, e que servirá de experiência para novos processos da escola no futuro.

Especialização em Saúde Pública

As aulas da turma 2019-2020 da Especialização em Saúde Pública iniciaram-se em 01 de julho de 2019 e a previsão era que seriam finalizadas em maio de 2020. A turma é composta por 35 alunos e vem sendo desenvolvida pela ESP-MG, em parceria com a Rede Brasileira de Escolas de Saúde Pública (RedEscola), como parte de um projeto mais abrangente que propõe a incorporação das bases da educação interprofissional na formação de sanitaristas no país. Até o momento da suspensão das aulas presenciais, foram integralizados quatro, dos seis módulos, o que representava um pouco mais de 80% do curso, que tem uma carga horária total de 396h, distribuídas em 10 semanas letivas de 40 horas/aulas cada, realizadas mensalmente. As aulas deste semestre, na modalidade de ensino remoto, começaram em julho e no naquele mês foi ofertada a disciplina: Regionalização e Regulação do SUS; em agosto está sendo lecionada a de Planejamento e Avaliação em Saúde e em setembro será a de Financiamento do SUS, todas fazem parte do Módulo V – Planejamento e Gestão do SUS.

A Analista de Educação e Pesquisa em Saúde e Coordenadora da Especialização em Saúde Pública da ESP-MG, Amanda Soares, destaca que faltava uma carga horária muito pequena para poderem finalizar o curso e diante do cenário de aumento dos casos de covid-19 e a falta de previsão de quando poderiam voltar a ter as aulas presenciais, a Escola buscou esta possibilidade do ensino remoto para poderem fechar o semestre. A coordenadora ressalta que a decisão foi marcada pelo diálogo com todos os atores envolvidos. "Todo o processo envolveu muita conversa e escuta e consideramos sempre a realidade de vida e particularidades de nossos estudantes", explicou.

O desenvolvimento das disciplinas envolve atividades síncronas (encontros ao vivo entre docentes e alunos) e atividades assíncronas (aquelas em que o aluno pode assistir às aulas e realizar as atividades, dentro de sua disponibilidade de horário). Além das atividades síncronas e assíncronas, está prevista para cada disciplina a realização de atividade avaliativa de produção individual, que deverá ser elaborada e enviada por e-mail. Considerando as especificidades do ensino remoto, a frequência nas disciplinas será computada a partir da entrega e da avaliação da atividade de produção individual; e da participação em momentos síncronos.

Aula remota da turma de Especialização em Saúde pública

 A coordenadora, Amanda Soares, enfatiza que foi preparado um plano de ensino remoto para a especialização e as aulas iniciaram em 13 de julho, com previsão de terminarem em setembro. A coordenadora reforça que toda a carga horária e atividades remotas foram organizadas de modo a não prejudicar os alunos e possibilitar que todos acompanhassem as aulas e conseguissem se desenvolver, sem grandes dificuldades. Sobre os principais desafios, Amanda Soares destaca a necessidade de adaptação tecnológica tanto do corpo docente, quando do discente e também os problemas técnicos, que eventualmente ocorrem. Além disso, ela salienta que de forma geral, os alunos estão se adaptando bem com a nova modalidade de ensino e em relação aqueles em que ela identifica alguma dificuldade, tem feito um acompanhamento mais próximo e semanal.

Especialização em Direito Sanitário

A turma da Especialização em Direito Sanitário iniciou em formato presencial em novembro de 2018 e a previsão de conclusão do curso seria para outubro de 2020. Entretanto, diante da suspensão das atividades presenciais, a finalização do curso precisou ser adiada e será de modo não presencial, sendo que as aulas terminarão em novembro e as defesas de TCCs estão previstas para março de 2021. As aulas deste semestre do curso começaram em julho, com a disciplina "Espaço de Interlocução de Práticas em Saúde", que busca aproximar os alunos do cotidiano e do processo de trabalho na saúde. A programação original do curso incluía visitas técnicas a diversos serviços de saúde, mas diante do cenário da pandemia covid-19 foi necessário reorganizar as atividades para o formato não presencial. "Nesse contexto, com o intuito de tornar a disciplina o mais próxima possível da prática em saúde, elaboramos um Tour Virtual a diferentes serviços, buscando incluir atividades mais reflexivas e em diálogo com a situação atual, explica a Analista em Educação e Pesquisa em Saúde e Coordenadora Técnica do curso de Especialização em Direito Sanitário, Luciana Souza d'Ávila.

De acordo com Luciana, esse processo de adaptação para o ensino remoto tem sido desafiante. Ela e a coordenadora pedagógica do curso, Roberta Vaz, precisaram adaptar todo o plano de curso e a carga horária que estava remanescente para este novo formato. "Além do desafio que a própria modalidade exige, de ter diversificação de atividades (leituras, estudos dirigidos, vídeos, dentre outros) para que os encontros virtuais sejam mais proveitosos, tivemos que reinventar o curso metodologicamente, pedagogicamente e administrativamente", afirma.

A coordenadora técnica também ressalta que as adaptações realizadas consideraram o contexto de vida dos alunos, havendo mudanças no cronograma, na duração e no horário das aulas. "As aulas ao vivo precisam ser mais curtas (antes, os alunos tinham dois dias de aulas, de 8 horas cada), pois o formato virtual é mais cansativo. Os alunos também estão tendo que adaptar seus próprios processos de trabalho, porque estão tendo alta demanda relacionada à pandemia - já que muitos são profissionais de saúde- o que faz com tenham mais dificuldades em se dedicarem ao curso e ao TCC", completa. Diante desse cenário, Luciana destaca o trabalho em parceria com a coordenadora pedagógica, Roberta Vaz, e os demais colegas envolvidos, o que foi essencial para garantir a retomada das atividades.

Turma da especialização em direito sanitário

 Em julho, ocorreram encontros virtuais com trabalhadores, sendo o primeiro, no dia 21 e aconteceu com três profissionais do Consultório de Rua de BH: Daniela Garcia, Carina Camargos e Júnia Costa. As profissionais apresentaram e discutiram com a turma sobre a história do Consultório de Rua, os processos e o cotidiano de trabalho, os desafios, casos emblemáticos e também o impacto da pandemia nas ações. A enfermeira, Júnia Costa, que atualmente mora em Portugal e atua com a população de rua de lá, compartilhou com os alunos, por meio de videoconferência, sua experiência com os pacientes daquele país.

No segundo encontro, que ocorreu no dia 23 de julho, participaram as trabalhadoras da equipe da Subsecretaria de Regulação da SES-MG: a subsecretária de Regulação do Acesso a Serviços e Insumos de Saúde, Juliana Ávila Teixeira a Superintendente de Regulação, Daniela de Cássia Domingues; a Diretora de Programação Pactuada Integrada, Lidiane Geralda Costa Martins e a Assessora da Subsecretaria de Regulação em Saúde, Lizziane d' Ávila Pereira. As convidadas apresentaram o processo de regulação no estado, os desafios vivenciados, as interfaces com a justiça e também o impacto da pandemia nesse processo.

Para a coordenadora técnica do curso, "os dois encontros foram muito interessantes, com discussões voltadas para as práticas, tanto das convidadas, quanto dos alunos". Luciana ainda explica que o curso seguirá, intercalando aulas on-line ao vivo e atividades dirigidas, como estudos, trabalhos e o próprio tour virtual aos serviços de saúde.

Ensino remoto e ensino a distância

Sobre o ensino mediado por tecnologias digitais, o Superintendente de Educação e Pesquisa em Saúde, Rodrigo Martins destaca que a ESP-MG possui experiência com a oferta de ações na modalidade EaD já há alguns anos, pois a Assessoria de Educação a Distância, junto com as equipes de Superintendência de Educação e Pesquisa em Saúde já produziram diferentes cursos nesta modalidade. Já o uso do ensino remoto nas ações da Escola, que é diferente da EaD, foi uma novidade para grande parte da equipe. "Tanto as coordenações, quanto os docentes precisaram desenvolver novos conhecimentos e práticas para a incorporação dessas ferramentas", pontua.

O ensino remoto emergencial foi uma medida extraordinária e temporária aprovada pelo Ministério da Educação (MEC), por meio da portaria nº 343, de 17 de março de 2020, para que as instituições de ensino pudessem cumprir o cronograma das aulas presenciais, que precisaram ser interrompidas por causa da covid-19. O ensino remoto praticado em razão da pandemia assemelha-se, em algumas características, ao Ensino a distância (EaD), pois ambos têm em comum o fato de ser um ensino mediado pela tecnologia. Contudo, no ensino remoto, a lógica do curso foi inicialmente pensada dentro dos princípios do ensino presencial, tendo sido, posteriormente, adaptado para funcionar a distância. Além disso, o ensino remoto dispõe de aulas, encontros e debates ao vivo entre os docentes e os alunos. Já no EaD, o curso foi planejado deste o início, para ser online, tendo os recursos específicos para funcionar desta maneira.

Sobre os desafios do ensino remoto e a possibilidade de ocorrer outros cursos nesta modalidade futuramente na ESP, Rodrigo Martins explica que do ponto de vista institucional é preciso investir na aquisição de equipamentos e estrutura tecnológica, bem como suporte, que apoiem um uso mais intensivo destas tecnologias, o que é um grande desafio em tempos de restrições orçamentárias. Outro grande desafio, de acordo com ele, será a integração dos processos pedagógicos e de gestão acadêmica na perspectiva do ensino remoto. "Entendo que a adoção de um sistema de gestão acadêmico virtual, que contemple todas as etapas da relação com os docentes e alunos, é uma demanda que os tempos atuais impõem à nossa instituição. Outro desafio, também, é promover discussões entre as equipes sobre o uso da tecnologia e suas potencialidades, de forma a qualificar sua incorporação nos processos educativos. A pandemia acabou por acelerar essa incorporação. Hoje avalio que o uso do ensino remoto, considerando a missão e abrangência da ESP-MG, é muito importante e pode qualificar nossa atuação no território mineiro", finaliza.

Por Vívian Campos